sábado, 21 de fevereiro de 2015

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este poema me encanta muito..
ele retrata a dor de uma maneira envolvente..
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Fica com a cama.
Nela estão todos os meus perfumes e também os meus melhores sorrisos.
(sob o travesseiro do lado direito talvez ainda o som daquela gargalhada).
Fica com os lençóis das nossas madrugadas, os cartões de crédito e todos os
poemas. O cobertor azul eu deixo porque ainda é inverno
(e eu estava acostumada a te aquecer).

As fotos também eu cedo, não as quero.
Não refletem os medos que tive, são apenas momentos
(congelados feito os projetos que adiamos).
As chaves do apartamento deixo sob o tapete.
O amor e os sonhos eu levo junto com o meu olhar encantado.

A dor está na caixa pesada que ficou no banheiro.
Não se preocupe, é minha.. prometo vir buscar no feriado (eu levaria hoje,
se pudesse, mas no carro não cabia o mundo inteiro).

..Nalu Nogueira.. 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

noite

As casas fecham as pálpebras das janelas e dormem.
Todos os rumores são postos em surdina,
Todas as luzes se apagam.

Há um grande aparato de câmara funerária
Na paisagem do mundo.

Os homens ficam rígidos,
Tomam a posição horizontal
E ensaiam o próprio cadáver.

Cada leito é a maquete de um túmulo.
Cada sono um ensaio de morte.

No cemitério da treva
Tudo morre provisoriamente.

..Menotti Del Picchia..

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

enquanto isso..

não te darei um filho, amada,
para que não sofras
do ventre a contração e o grito
na paz da orla pubescente.
se tu queres um tempo de criança
em teu alento,
em teus seios, teu pudor, teu canto,
deixa que eu permaneça
renascido de ti mesma
numa nudez que me perdure
no menino que eu não quero morto

..Carlos Cunha........tempo de criança